"Quebrar o isolamento com 4 patas por Sophie Picoto"

Cada vez mais nos damos conta de um tipo de envelhecimento solitário, isolado e nesta era de novas tecnologias vai se perdendo o contacto humano direto em detrimento de um mundo mais digital.

Este envelhecimento atrás de portas, traz lutos de um tempo que não volta para trás, perdas de cônjuges e amigos, o afastamento de familiares por rotinas demasiado exigentes, a diminuição de capacidades e de vitalidade o que leva a uma passagem por diferentes e difíceis estados emocionais que muitas vezes prejudicam o estado de saúde geral e mental.

E é aqui que podem entrar os nossos amigos de quatro patas: grandes, pequenos, felpudos, rasteiros, ariscos ou tranquilos. Os animais proporcionam sensações semelhantes às ressentidas nas relações interpessoais pelo que são uma ferramenta muito enriquecedora quer do ponto de vista emocional quer do ponto de vista social.

Os animais sentem e mostram emoções, fazendo-nos experienciar sensações sem barreiras e sem qualquer tipo de imposição exterior ou moral, pelo que se torna mais fácil quebrar o isolamento.

O contacto com o animal pode funcionar como um lubrificante social, ajudando a pessoa a ajustar se a novos contextos ou mudanças inesperadas, como por exemplo a entrada para uma casa de repouso. Pode levar a uma reaproximação da sua comunidade, do exterior ao ter o dever de sair para passear o cão ou o aconselhar se com a loja de animais sobre qual o melhor brinquedo para o gato.

Encontramos ainda inúmeros benefícios que advém do contacto dum animal a um nível físico. Estudos demonstram que há uma diminuição da tensão arterial, há a libertação de oxitocina, «a hormona responsável pelo amor», o que leva à redução da ansiedade e do stress, normalização do ritmo cardíaco, entre outros. Com um simples afocinhar ou uma pata no colo, o nosso corpo vai reagir e aumentar o bem-estar geral.

Mas não ficamos por aí, de um ponto de vista emocional, a interação e convivência com um animal leva a uma melhoria do estado de ânimo também porque deixamos de ser cuidados para passar a ser cuidadores e portanto úteis, necessários para o bem-estar de outro ser e o foco deixa de ser a própria solidão. Quem nunca desatou à gargalhada porque o cão fez uma graça ou sorriu porque o canário respondeu, à sua maneira, à pergunta que lhe foi feita? Todos estes pequenos momentos acabam por tornar a vida mais rica e descentrada de si próprio.

Nem todos os idosos terão possibilidade em ter um animal em casa, e aqui surgem as Terapias Assistidas por Animal ou as Atividades Assistidas por Animal.

"As Terapias Assistidas com Animais são, como o nome indica, a utilização do animal no processo terapêutico do paciente"

As terapias assistidas por animais, ou seja, a utilização do animal no processo terapêutico é feita, essencialmente, através do recurso a uma série de atividades, anteriormente programadas com o Técnico de Saúde, que acompanha o paciente, e é submetida a uma avaliação posterior.

O recurso a esta técnica requer animais treinados e anteriormente avaliados para a execução desta metodologia, um Técnico de Terapias Assistidas com Animais e de um Profissional de Saúde.

Só através destes três elementos conseguimos ter uma Sessão de Terapias Assistidas com Animais. Cada um no seu papel será responsável pelo desenvolvimento e avaliação da Atividade Terapêutica e terá um papel crucial para o sucesso deste tipo de intervenções.

Nas Atividades Assistidas por Animal já não será necessário o profissional de saúde nem avaliação da intervenção, mas terá os mesmos moldes que a TAA.

Um cão de terapia é uma ferramenta muito flexível que pode trazer um grande número de respostas para pessoas com problemas de desenvolvimento, deficiências cognitivas, hiperatividade, etc. A terapia com animais tem funções formativas, ajudando a melhorar a autonomia, a responsabilidade, a socialização e a reabilitação. É importante destacar que a terapia assistida com animais atua sobre a globalidade da pessoa, em parte devido à capacidade de empatia e relação do animal. Além disso, a afetividade que um cão tem possibilita um alívio das tensões inerentes à sua situação pessoal.

O trabalho nas terapias assistidas pode abranger áreas tão diversas como as habilidades sociais, a saúde, o cuidado pessoal, estimulação multi-sensorial, criatividade e comunicação e linguagem.

O potencial de desenvolvimento de cada um dentro da terapia será diferente devido às particularidades e singularidades individuais. Na base do trabalho realizam se alguns exercícios que servirão para criar um elo de ligação entre o cão e a pessoa, o que será como um trampolim para as relações do utente com as outras pessoas. Os exercícios podem passar por elementos tão simples como acariciar o animal como poderão desenvolver-se outros exercícios mais exigentes como o ensino de obediência básica.

Não se pode dizer que o cão tem poderes mágicos, de dissolver angústias e de fazer o tempo voltar para trás, mas pode se afirmar que estes patudos podem fazer uma real diferença na vida de quem contacta com eles. E quem diz cão, pode dizer canário ou gato. A verdade é que para quebrar o isolamento tem que haver uma vontade de ambas as partes de o fazer e muitas vezes a iniciativa vem do lado animal que acaba por reacender a vontade de partilhar e de comunicar de quem já não está à espera de muito.

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